A concessão de benefícios vinculados à folha de pagamento abre um leque promissor de negócios no mercado
O sucesso da estratégia de conquistar os clientes das classes C, D e E passa pela compreensão de que, para essa faixa da população, o consumo está aliado ao crédito. Portanto, a oferta de financiamento rápido e barato é a única forma de estimular o consumo, proporcionar a inclusão bancária e reduzir a prática do crédito informal, recorrente entre as que estão alijados do sistema bancário.
Há diversas modalidades de serviços de crédito para população de baixa renda em oferta no mercado brasileiro. Uma das mais promissoras envolve o cartão de benefícios consignados à folha de pagamento – uma tentativa de incorporar o dinheiro de plástico nas operações cotidianas dos trabalhadores – que as empresa consideram bastante promissor.
A Unik, antiga Sodexho Pass Saúde, administradora de benefícios que possui cerca de 600 mil cartões ativos e registra um volume de 500 mil transações por mês, espera faturar R$ 150 milhões, este ano, com cartões múltiplos atrelados ao salário do usuário. Essa meta, se confirmada, irá representar crescimento de 100% nos negócios em relação exercício passado. “Há um grande potencial nessa área por causa da alta taxa de desbancarização das classes populares”, afirma José Roberto Kracochansky, diretor-superintendente da companhia.
A aposta da Unik no mercado de cartões múltiplos começou a ganhar forma em julho do ano passado – até então, a empresa oferecia apenas cartões de benefícios para compras em redes de farmácias e drogarias – no rastro do crescimento da oferta de empréstimos consignados em folha de pagamento, no país. Os cartões múltiplos emitidos pela empresa podem ser utilizados em diversos estabelecimentos comerciais, como supermercados, revendedores de gás, óticas etc.
Mas o executivo faz questão de destacar que a modalidade oferecida pela Unik não é empréstimo consignado, mas sim um adiantamento salarial, autorizado pelo empregador, para que o usuário possa fazer operações financeiras.
O cartão de benefício funciona como uma espécie de cartão de crédito pré-pago. O usuário pode realizar compras até o limite autorizado pelo empregador, estabelecido de acordo com a faixa salarial. O limite para consignação do crédito é de 30% do salário.
Segundo ele, o universo de empresas de pequeno, médio e grande portes de diferentes ramos de negócios que aderiram aos cartões de benefícios da Unik cresceu de 1.500, em 2004, para 2mil, este ano. Entre elas, figuram Sadia, Unilever, Minas Gás, Eletrolux. Na faixa das médias empresas predominam as que possuem, em média, 300 funcionários.
A Unik também registrou crescimento no total de estabelecimentos comerciais credenciados: saltou de 6 mil farmácias para 12 mil estabelecimentos que vendem bens de consumo não duráveis. Boa parte deles está localizada na periferia das grandes cidades. Os cartões de benefícios da empresa são aceitos nas redes regionais, assim com nas grandes cadeias nacionais, casos do Carrefour e da Farmais. Com esse formato, 70% dos usuários passara a usar o cartão todo o mês – antes apenas 30% laçavam mão do plástico para fazer compras nas farmácias e drogarias.
Uma parceria entre o Banco Popular e a Indústria Tramontina tornou possível a criação de uma linha de crédito para financiar a compra de equipamentos para quem pretende iniciar um negócio próprio. O objetivo é facilitar a aquisição de bens geradores de rendas, ou seja, ferramentas de trabalho para diversos profissionais, tais como jardineiro, eletricista, borracheiro, encanador, mecânico e agricultor.
Lançado em setembro, o projeto Crédito Popular para Financiamento de Bens Produtivos, como foi batizado, está disponível em caráter experimental para os clientes do Distrito Federal e Entorno. A Indústria Tramontina produziu 12 kits de ferramentas de trabalho, cuja aquisição poderá ser financiada em até 24 parcelas, no limite de R$ 600,0. Será cobrados juros de 2% ao mês e não haverá a necessidade de apresentação de garantias. A proposta do Banco Popular é oferecer crédito simplificado, aprovado em até 24 horas, para os seus correntistas que não possuem outro tipo de empréstimo ou financiamento junto à instituição.
Na hora do financiamento, o ponto de atendimento do Banco Popular enviar à Indústria Tramontina o endereço do cliente, para entrega das ferramentas sem custos adicionais. Segundo informações do banco, as prestações são mensais e debitadas automaticamente na conta corrente do cliente, na data escolhida para o vencimento. No ato da contratação, será cobrada Tarifa de Abertura de Crédito de 2% do valor financiado. Também por meio de débito em conta.
Outra iniciativa bem-sucedida de concessão de crédito e inclusão bancária vem sendo patrocinada pelo Banco do Nordeste (BNB), através do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). No primeiro semestre deste ano, 195 mil famílias, boa parte das quais com renda bruta anual de até R$ 2 mil, foram contempladas com R$ 388,5 milhões. De acordo com a instituição, esse montante representa expansão de 21,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O volume supera em quatro vezes as contratações do primeiro semestre de 2003 e em cinco meses o volume contratado nos seis primeiros meses de 2002. As famílias que ganham até R$ 2 mil brutos por ano absorveram R$ 156,6 milhões, cerca de 40% do total.
A desburocratização das operações do Pronaf e o Crédito Fundiário explicam o crescimento do aporte do BNB na agricultura familiar. Entre outras ações, a instituição criou a figura do assessor de microcrédito rural e dispensou a exigência de garantias reais para os financiamentos de valor inferior a R$ 20 mil. Assim, de janeiro a julho deste ano, o banco contratou 324,9 mil operações de microcrédito, através do programa CrediAmigo, que tem carteira ativa de 177,3 mil clientes (60% são mulheres) o valor médio das operações, este ano, de R$ 913,37. No primeiro semestre, as aplicações do CrediAmigo cresceram 25,2% em relação ao mesmo período de 2004.
O Banespa/Santander pretende manter até dezembro o programa de crédito pessoal com carência de até 90 dias, após a contratação, para o pagamento da primeira parcela. Os clientes que recebem o salário pelo banco podem contratar o empréstimo em até 48 meses. Para os demais o período é de 24 meses. O valor mínimo para empréstimo é de R$ 200,00 e o de cada parcela é de R$ 30,00. Segundo o banco, o objetivo da promoção é proporcionar ao cliente um prazo maior para saldar a primeira parcela do empréstimo e ajustar, nesse período, a sua situação financeira.
Fonte: Revista Executivos Financeiros - Outubro/2005